Dólar, especulação e milagres políticos: A narrativa da extrema direita sobre a economia

A economia brasileira, como sempre, é um prato cheio para narrativas políticas. Quando o dólar sobe, a extrema direita não hesita em apontar o dedo: “É culpa do governo brasileiro!”. A lógica deles é simples: não importa se o DXY (índice que mede o dólar frente a outras moedas fortes) disparou ou se o Federal Reserve decidiu elevar os juros nos Estados Unidos, o culpado, de alguma forma, será sempre Brasília.

Agora, a história fica ainda mais curiosa quando o dólar cai. De repente, a narrativa muda: “Ah, foi sorte. Ou talvez seja o efeito Trump.” A mesma moeda que antes seguia exclusivamente os “erros do governo” agora é guiada por milagres políticos vindos sabe-se lá de onde.

A Realidade do Mercado Cambial

Vamos entender algo fundamental: o dólar não dança conforme a narrativa política brasileira, mas sim ao som do mercado global. Quando o Federal Reserve eleva juros nos EUA, investidores buscam segurança no dólar, aumentando sua demanda. Isso impacta o real, o euro, o iene e outras moedas globais. É como um jogo de dominó: o que acontece lá fora tem reflexos diretos aqui.

A alta recente do dólar foi motivada por esses fatores externos. O DXY subiu, reforçando o dólar frente a diversas moedas, e a economia global enfrentava incertezas. Mas, para quem prefere simplificar tudo, era mais fácil culpar o governo brasileiro.

Agora, com a recente queda do dólar, vemos um recuo nos juros dos EUA e uma menor aversão ao risco nos mercados emergentes. Isso facilita a valorização do real e de outras moedas. Mas, na narrativa da extrema direita, isso não pode ser fruto de movimentos econômicos complexos – é “sorte” ou “efeito Trump”. Ironia ou má-fé? A gente deixa pra você decidir.

Por Que Essa Narrativa Persiste?

A verdade é que a extrema direita domina a arte de criar bodes expiatórios. Apontar o governo como culpado para tudo – inclusive movimentos naturais de mercado – é uma estratégia política eficiente. Afinal, para muitas pessoas, economia é um tema distante e difícil de compreender. É mais fácil acreditar na frase pronta do que buscar entender o impacto do Federal Reserve, da especulação cambial ou do fluxo de capitais globais.

Por outro lado, quando o dólar cai, admitir que o governo atual pode ter um papel na melhora da percepção do país é inadmissível. Melhor desviar o crédito para “fatores externos” ou criar narrativas improváveis.

O Papel da Especulação

Outro fator que raramente é discutido por quem aponta o dedo são os movimentos especulativos. Em muitos casos, o mercado opera de forma antecipada, reagindo a expectativas, e não a realidades. Assim, notícias sobre eleições, reformas ou até eventos geopolíticos podem causar oscilações no dólar sem que o governo tenha qualquer participação direta.

Mas, para quem vive de narrativa, especulação é uma palavra que raramente aparece no vocabulário. Afinal, ela enfraquece a ideia de que “tudo é culpa de um lado só”.

O dólar deveria ser uma métrica econômica, mas, no Brasil, virou uma ferramenta política. Ele sobe? Culpa do governo. Ele cai? Foi sorte ou a bênção de um político estrangeiro. No fim das contas, o que realmente importa para a narrativa não é a verdade econômica, mas sim o quanto ela pode ser ajustada para servir a interesses políticos.

Enquanto isso, a realidade segue firme: o mercado é movido por forças globais, especulação e fundamentos econômicos – não por “culpa” ou “milagres”. Se quisermos um debate sério sobre economia, talvez seja hora de deixar as narrativas fáceis de lado.

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